Transpirataria na vida e política

A questão trans nos últimos anos tem saído dos becos, esquinas e ruas para o debate político. Pergunta-se: Qual é o lugar das pessoas trans e travestis na sociedade? Está implícito o abandono dessas pessoas pela família, pela escola e pelo mundo do trabalho que compromete a vivência plena de sua identidade e autonomia que lhe possibilite uma vida estável e segura.

Nossa sociedade vive um complexo dualista entre certo e errado, bom e mau, homem e mulher. Acreditamos na necessidade de transcender as dualidades. Ao nascer, em nossa certidão de nascimento, registra-se o aparente que se apresenta pelo biológico e segue-se um processo de socialização definido pelo genital. Espera-se desse individuo uma correspondência da socialização realizada; não havendo, cobra-se esta adequação. Os laços afetivos e sociais são frágeis, pois não se educa o indivíduo para a autonomia e liberdade, seja na família, na escola ou no trabalho. Sem estruturas para assumir sua identidade individual, pessoas trans sentem-se à margem da sociedade e ao decidir enfrentar um mundo que as hostiliza, vivem a margem da sociedade sem a mínima esperança de uma vida independente e segura.

Essa discussão apresenta outras questões sobre identidade de gênero, orientação sexual, expressão de gênero. Nossa sociedade vê todos esses pontos como um só, quando na realidade são distintos e precisam ser colocados em pauta para se conhecer seu significado na prática diária das pessoas trans. A identidade de gênero destaca como o indivíduo percebe-se diante da sociedade, seja ela cis ou trans. A orientação sexual demonstra-se nas relações afetivos-sexuais do indivíduo com pessoas do mesmo sexo e/ou seu oposto e a expressão de gênero apresenta a identificação visual e comportamental diante da sociedade. Ao falar que sou pessoa trans estou tornando público minha identidade de gênero no sentido de que assumo ter recebido a socialização em um gênero, mas me perceber em outro. Por exemplo, posso ser trans hetero, bissexual, lésbica ou gay demonstrando minha orientação sexual. Além disso posso ser uma pessoa trans com expressão de gênero que transcende ao binário numa composição e num comportamento que busca fugir da expressão masculina ou feminina, algo que é construído por esses indivíduos.

A população trans tem várias demandas. A primeira é que a transição seja reconhecida como um processo normal do ser humano, fora do olhar patologizador que invariavelmente vem estigmatizand o trato do Estado sobre a questão. A transição deve ser um direito humano independente de laudos e não ser classificada como doença. A segunda demanda é o espaço social para exercer sua autonomia e autocuidado com políticas de desburocratização para a mudança de nome e gênero, além de um cuidado humanizado em hospitais e postos de saúde e da desburocratização para iniciar o tratamento hormonal. A terceira demanda também tem a ver com a segunda, acesso as salas de aula de escolas e universidades que não barrem sua entrada e permanência durante o processo de transição. Políticas como essa são necessárias para uma população tão carente e necessitada do amparo da sociedade, haja vista que pessoas trans como conhecedoras do sofrimento cotidiano que passam, entenderam que o espaço da política também pertence a elas e que foi ocupado na eleição de 2016 com pessoas trans que se candidataram a câmaras de vereadores e prefeituras nas médias e grandes cidades do país.

O #lugardetransenapolitica também é lugar de transpirataria. Como um partido jovem e aberto às necessidades de todas as pessoas, o Partido Pirata através de seu Setorial de Diversidade se reconhece como espaço Trans. Apesar de termos poucas pessoas trans atualmente, nosso desejo como Setorial é expandir e representar de forma respeitosa, firme e militante a causa trans como causa pirata. Queremos invadir a política com a Transpirataria e convidamos você Transhomem, Transmulher, Transnãobinário para juntar-se a essa legítima ocupação. A causa trans precisa ser causa política. Não só apoiada pelas pessoas trans, mas também pelos demais que compõem a representação LGBTQIAP de nossa sociedade e aliados. Queremos mostrar do que somos capazes na luta contra todas as opressões, a favor da liberdade e dos direitos humanos. A Transpirataria é nosso sonho, nosso desejo e nossa luta que você também pode e deve participar.

Salve a visibilidade trans. Salve o direito de ser. Salve a Transrevolução.