Pioneiras antes da história

O 8 de março, já há alguns anos, é marcado por alusões a mulheres inovadoras e pioneiras, que quebraram barreiras existentes em seu (e no nosso) tempo.

Acho ótimo.

Mas muito além de Ada Lovelace, Ruth Brown, Hedy Lamarr, Katherine Johnson e tantas outras, é um pouco irritante ver sempre histórias sobre “a primeira mulher médica” ou “a primeira engenheira” ou “a primeira professora”. Sim, são fatos históricos relevantes, por um lado, por outro, me parece uma imensa injustiça histórica.

Por que? Porque mulheres sempre fizeram isso.

Mulheres eram médicas com suas ervas e conhecimento passado entre mulheres muito antes da medicina. Mulheres eram filósofas, matemáticas e astrônomas, mulheres decifravam os ciclos da natureza e a agricultura antes do estabelecimento do método científico, mulheres sempre foram professoras e líderes espirituais em suas comunidades e suas famílias. A ideia de que homens sempre foram curiosos e exploradores, que olhavam para o céu e decifravam o comportamento dos astros enquanto nós ficamos com a cabeça aqui parindo filhos é muito mesquinha. A humanidade sempre teve a mesma centelha de barbárie e de curiosidade, de desenvolvimento e inovação, antes que a história da humanidade fizesse parte de um registro, e nós somos parte dela.

Historicamente, temos uma primeira mulher a ingressar na NASA, mas quem foi a primeira mulher a olhar para o céu e planejar os ciclos cotidianos de acordo com as estrelas ou a lua? Temos uma primeira mulher engenheira, mas quem terá sido a primeira mulher a desenvolver uma casa com material disponível com as próprias mãos? Essas linhagens vão muito além de nós.

Por que, então, estou falando disso? Parece que estou querendo minimizar os feitos de mulheres que hoje, com muito esforço, tem seus nomes reconhecidos? Claro que não.

Quero apontar que mulheres sempre exerceram todas essas funções, socialmente, cotidianamente, e se não há inscrições anteriores a isso ao século passado que seja, é porque fomos impedidas: o humanidade fez um esforço consciente, ativo, buscado e construído de aniquilação da mulher. A mulher não era letrada porque era impedida, não entrava nas universidades porque era impedida, não cuidava da própria vida porque era proibida, obrigada legalmente a ter a tiracolo um homem, e ah, pobre da mulher que perdesse todos para a guerra, para a fome, para a peste…impedida de ser a dona da própria vida, sem um dono que respondesse por ela!

As grandes mulheres cujos nomes reconhecemos hoje foram as mulheres que conseguiram seu lugar APESAR do boicote. Nem todas tiveram essa sorte.

Devemos celebrar cada uma dessas mulheres incríveis, pioneiras, sim, cada uma com uma contribuição ao mundo que conhecemos hoje, e um passo além no reconhecimento do nosso espaço. Mas creio que seja hora de ir além, e começar a corrigir essa ideia de que a nossa participação começou com elas. Nós sempre estivemos lá, o mundo não existe sem as mãos das mulheres, nós só tivemos nossos nomes roubados dos livros.

“Ao longo da maior parte da história, Anônimo era uma mulher.” (Vinginia Woolf)