O ameaçador feminismo e a masculinidade frágil

Por Bucaneiras e Sereia Ciclista

Não se nasce homem, torna-se machista?

Em plena virada de ano, doze vidas foram perdidas em um massacre anunciado por uma carta de ódio. Tragédia, chacina, feminicídio e misoginia foram algumas das palavras utilizadas para descrever os acontecimentos, e todas registram fielmente as nuances do crime cometido, o seu caráter político e a violência odiosa contra as mulheres. As raízes desta tragédia não estão nada distantes de nós. Ao contrário, estão presentes lá no fundo de nossas mentes, de nossas lembranças. Nosso inconsciente, captando passivamente todos os pequenos detalhes de nossas vivências, trata de, naturalmente, reproduzí-las consciente e inconscientemente. As piadinhas e estereótipos que crescemos ouvindo e reproduzindo por anos e anos acabam servindo, na realidade, para preparar um terreno igualmente e extremamente hostil no qual o futuro irá se sustentar. A socialização acaba sendo um fator definitivo no que concerne às opiniões dos homens sobre as mulheres no decorrer de suas vidas, e isso está além de palavras jogadas ao vento. Trata-se de ofensas diárias, humilhações, agressões físicas e assassinatos.

Gostaríamos aqui de propor uma reflexão, não sobre a vítima, mas sobre o poder do discurso, a força política transformadora da mulher e o vazio argumentativo entre os homens que se dizem “feministas”.

O discurso é um elemento fundamental para a construção da nossa percepção sobre o mundo em que vivemos. Através dele construímos e comunicamos categorias para explicar e embasar nossa atuação. Portanto, todo discurso é político em sua concepção. As palavras que escolhemos, o significado que as atribuímos e como as organizamos são reflexos de nossas crenças e compreensão de mundo, e ao reproduzirmos um discurso nós colaboramos para a sua renovação, ou seja, seu fortalecimento. A carta produzida pelo assassino traz uma narrativa de mundo que nos soa familiar pois é fruto de um senso comum reproduzido nas rodas de amizades entre homens que raramente é questionado dentro destes ambientes. Sua presença nas redes sociais segue os mesmos mecanismos que reforçam o preconceito e o ódio FORA destas redes. Mais ainda: têm suas consequências ampliadas, fenômeno conhecido e explicado pela socióloga Karen Knorr Cetina:

“Efeitos de desproporcionalidade podem ser extraídos, por exemplo, do uso da tecnologia, da ciência e outras inovações, e dos diversos tipos de “mídias” usadas como sistemas amplificadores e multiplicadores. […] os elementos de coordenação envolvidos não são do tipo que associamos com autoridade formal, hierarquias complexas, procedimentos racionalizados ou estruturas institucionais profundas. Na verdade, os mecanismos envolvidos podem ser similares aos que encontramos em situações face-a-face, mas ao mesmo tempo sustentam arranjos à distância e sistemas distribuídos”. (tradução nossa, CETINA, 2005, p.214 – 215)

Deste modo, fica fácil entender como as redes sociais também funcionam como espaços de organização e potencialização do discurso que afirma o ódio contra a mulher. A grande diferenciação entre os círculos masculinos nos bares e praças e nas redes está no alcance e reprodutibilidade da mensagem produzida, ou seja, indivíduos antes isolados ou cerceados por controles pessoais de moralidade podem encontrar-se na rede e reafirmar seus preconceitos com pessoas que os incentivam. No entanto, estas mesmas tecnologias são apropriadas por movimentos sociais que lutam por igualdade de direitos entre homens e mulheres. São inúmeros os coletivos feministas e de mídia livre que buscam espalhar sua mensagem, muitos dos quais produziram textos utilizados aqui como referência. A atuação destes grupos é construtora do discurso que nos permite ler o mundo de diferentes formas, sendo o feminismo o movimento ímpar de construção e definição destas categorias políticas que permitiram a conquista de tantos espaços:

“As feministas trabalharam em várias frentes: criaram um sujeito político coletivo — as mulheres — e tentaram viabilizar estratégias para acabar com a sua subordinação. Ao mesmo tempo procuram ferramentas teóricas para explicar as causas originais dessa subordinação.” Piscitelli (2001, p.3)

Uma das primeiras reflexões do movimento feminista é sobre a construção do “outro” chamado de “mulher”, uma categoria que é tratada como diferente do homem, que por sua vez seria o padrão da pessoalidade, da cognição e da linguagem. O que se iniciou como uma revolta contra a desigualdade de tratamento e a opressão logo se expandiu para uma relativização do gênero como prisão e o reconhecimento de inúmeras possibilidades de “ser mulher” para além das convenções machistas estabelecidas no passado. O que era considerado feminino foi alvo de reflexão, implicando não em seu descarte, mas em sua reinterpretação e sua transformação em potencial de escolha e atuação não definitivas.

“O leitor pode agora se perguntar como defino a feminilidade ou onde estabeleço a fronteira entre a feminilidade genuína e a ‘mascarada’. Minha sugestão, contudo, é que não há tal diferença; radicais ou superficiais, elas são a mesma coisa.” Butler (2003, p.86)

A capacidade dos movimentos feministas de se reinventarem e narrarem o mundo através do seu discurso possibilitou a conquista de muitos direitos que antes inexistiam para as mulheres e também amplo reconhecimento na sociedade. É perceptível como a cultura patriarcal tradicional se sente incomodada pela atuação de grupos feministas. A crítica à sua atuação é encontrada facilmente nos discursos destes opositores, assim como fora reproduzido na carta do assassino em sua crítica à lei Maria da Penha, bem como ao afirmar que sua antiga companheira “foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos”. O feminismo é visto como uma ameaça à sobrevivência da masculinidade. A despeito das grandes conquistas alcançadas pelo movimento feminista, é interessante observar como os homens que participaram deste movimento não obtiveram sucesso semelhante em redefinir o conceito de homem e de masculinidade com o “movimento de liberação masculina” (Men’s liberation movement) e os “estudos do homem” (Men’s Studies).

Não só academicamente, mas também no seio da própria militância, vemos os homens deixarem que as definições do que é “ser homem” e “ser macho” serem monopolizadas pelas mesmas tradições problemáticas que ensinam a violência como forma de autoafirmação, a anulação do emocional como prova de força, a sexualidade como valor em si, o moralismo patriarcal religioso e a objetificação da mulher como caminho natural do masculino. O pai do assassino definiu seu filho como “Tímido e retraído, ninguém sabia pelo que estava passando […] um amor de pessoa. Não bebia, não fumava”, sua incapacidade em descrever seu filho para além do consumo de drogas é um exemplo claro do distanciamento paternal e da falha da socialização que não permite a aproximação afetiva de pai e filho e cujo valor acaba sendo determinado por convenções rasas. Segundo uma das professoras de João Victor, filho do assassino, o menino não gostava do pai e havia prometido que quando crescesse iria matá-lo (mais uma prova de uma socialização frágil criada por um masculino frágil e defeituoso).

Por fim, cabe a pergunta: podemos acreditar em uma mudança significativa da nossa sociedade fundamentada na militância ativa dos homens pró-feminismo não só em defesa das mulheres, mas para com seus semelhantes?
Podemos confiar que metade da população terrestre irá abdicar de seus hábitos incontestados e reforçados pela mídia e cultura sem que haja uma forte oposição dos próprios homens para que isso aconteça?
Em tempos de reclamação sobre o protagonismo e a participação dos homens no movimento feminista, a ampla frente de trabalho que exige dos homens sua ação está abandonada à própria sorte enquanto o masculino segue assumido como indiscutível e natural. É preciso repensar a masculinidade tóxica, já tão naturalizada em nós, pelo bem de todos.

Increva-se https://www.youtube.com/channel/UCd0w23TdxCa39_DHATSPCEg

Fontes:http://www.culturaegenero.com.br/download/praticafeminina.pdf
http://docslide.com.br/documents/butler-judithproblemas-de-generocompletopdf.html
http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2017/01/a-tragedia-anunciada-do-eterno-odio.html
http://www.geledes.org.br/chacina-em-campinas-e-o-odio-que-se-transforma-em-maquina-de-matar-mulheres/#gs.enFgcfU
http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2017/01/veja-quem-sao-vitimas-da-chacina-em-festa-de-reveillon-em-campinas.html
http://www.shoujo-cafe.com/2017/01/mais-um-massacre-algumas-palavras-sobre.html
https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/02/o-monstro-sobre-a-chacina-de-campinas-misoginia-e-noticias/
CETINA,Karen Knorr. ComplexGlobal Microstructures: TheNew Terrorist Societies. Theory, Culture & Society vol. 22. TheTCS Centre, Nottingham Trent University, 2005.