Machismo e “piratas”

Queria aproveitar a ocasião “festiva” para compartilhar algumas experiências pessoais.

Cresci em família de engenheiros; meus pais, meus avôs, em obras, em oficina mecânica. Turminha do metal, do RPG, dos games. Fiz escola técnica, entrei pro técnico, engenharia civil, estágio em obra, escritório, judiciário. Todos ambientes machistas, mas em nenhum deles jamais sofri discriminação. Entendo que o meu caso é um ponto fora da curva, que a maior parte das mulheres que eu conheço já foi questionada sobre sua capacidade: na escola, no trabalho, em seus projetos, em seus meios sociais, mas eu não fui. Talvez porque as mulheres da minha família tenham sido tão descaradamente, tão gritantemente desbravadoras em seus tempos, e eu fui criada num ambiente em que tinha esse modelo, em que nunca me senti diferente ou deslocada por ser mulher, e nunca tive dificuldade em me enbrenhar em nenhum espaço – embora tenha, sim, carregado pencas de preconceitos que só vieram a se dissolver mais tarde, e tenha passado uma vez ou outra por assédio, mas esse tipo de discriminação, nunca senti.

Até me envolver com alguns grupos políticos.

Não posso dizer que seja profundamente engajada ou envolvida com estudos ou ações diretas de qualquer grupo em particular, mas mesmo fora das linhas de frente achava que pudesse ter algo a contribuir, fosse ajudar a construir projetos em andamento, colaborar com outros grupos, divulgar, enfim. Acompanhei de perto junho de 2013. Acompanhei o surgimento, crescimento e algumas dissoluções de coletivos e partidos, todos alinhados em grande medida com coisas nas quais eu acredito, uma delas, a busca por uma sociedade mais igual, menos segregada por cor, por gênero, por orientação sexual, por poder aquisitivo. Grupos buscando ecoar mazelas demasiadamente mundanas para merecer as primeiras páginas dos jornais. Todos esses pregam, sem exceção, respeito à mulher, combate ao machismo, combate às opressões, respeito ao espaço e ao lugar de fala.

Esse ambiente foi, ironicamente, a minha escola para o machismo.

Logo que comecei a me envolver com projetos de um grupo em particular e conhecer as pessoas, conheci um garoto que gostava de conversar sobre as imposições sociais das relações entre as pessoas – a monogamia, as imposições de gênero, tabus. Pedia opiniões sobre poemas eróticos – não é minha praia, mas ok, vamos lá, algumas coisas sensíveis, outras não sei. Às vezes mensagens soltas, outras vezes mensagens ambíguas, que pareciam flertes, mas poderiam ser poemas? Nunca saberei.

Era assédio. Todas as garotas que apareciam para contribuir acabavam ouvindo as mesmas mensagens inconvenientes, os mesmos gracejos, as mesmas tentativas de aproximação. Em algum momento falei que incomodava. “Achei que você não fosse monogâmica”. Como assim? Soube que já tinha sido assim por anos: por maior que se possa defender a liberdade sexual das pessoas, fato é que um assediador em série continuava fazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito, totalmente livre, se aproveitando da confusão em se colocar em prática certas bandeiras, de liberdade de expressão ao punitivismo. Era assédio, e enquanto mulheres abandonavam esses espaços constrangidas, o mesmo homem continuava lá, enchendo o saco e dando chiliques sempre que questionado, mas livre. Tínhamos ainda a ilustre presença de outro indivíduo, declaradamente misógino, que não conseguia se conter frente a qualquer possibilidade de picuinhas com mulheres ou sobre o feminismo. Discutimos várias vezes. Independente do claro problema com a ala feminina, ainda embrionária, ele continuava sabotando as coisas por lá.

Seguimos.

Presenciei meus primeiros casos de mansplaining. Quando estávamos estruturando o coletivo feminista, pela enésima vez, tentando superar sabotagens e ataques emocionais de vários lados e as obrigações múltiplas das mulheres que estavam dispostas a ajudar, fomos surpreendidas por uma publicação no fórum interno de um indivíduo explicando qual seria a maneira “certa” de estruturar um coletivo feminista.

Você não leu errado, e neste ponto deve conseguir adivinhar quem foram os apoiadores da ideia. Respondi apontando o absurdo de sequer cogitar instruir as mulheres do coletivo, todas adultas e calejadas, sobre como nossos movimentos não tinham de ser do agrado dele, e outra garota escreveu ainda mais demoradamente. Fomos rechaçadas em Fórum sob acusações infantis, daquelas que tentam inverter os papeis de oprimido e opressor. As meninas malvadas questionando os meninos que só querem ajudar. Ok.

Tivemos outros problemas no percurso. Decidimos fundar em definitivo o coletivo e definir as atribuições para lidar com questões de gênero e eventuais casos de assédio.

Um grupo tão alinhado com pautas progressistas e combate à opressão, e começamos a sofrer gaslighting dos homens bem intencionados com as questões de gênero.

Soa absurdo? Uma das meninas ouviu, de um dos pavões, que seriam escolhidas mulheres “de confiança” para acompanhar casos de assédio – leia-se, da confiança dele. Nas cochias, quando debatia propostas delicadas para as nossas pautas, questionaram a minha capacidade de opinar sobre o assunto – sim, sobre a forma de as mulheres conduzirem o tema – porque eu namorava outro rapaz do mesmo grupo político, do qual meu interlocutor era antagonista declarado. Não sei exatamente em que ponto minha capacidade analítica e opinião passaram a ser uma extensão do meu companheiro afetivo, mas é assim que fui lida. Em outra discussão, três garotas apontaram os mesmos problemas, que foram respondidos somente após um quarto elemento, um homem, apontar o mesmo problema. Nós ficamos sem resposta, ele não.

Apontei , durante uma outra conversa, o desconforto com uma dessas piadinhas inocentes (e sexistas) que as pessoas contam. Não fiz escândalo. Só expliquei que, naquele ambiente, pelo que estávamos tentando defender e construir, esse tipo de piada não era adequada. Em questão de minutos tinha uma dezena de dedos (masculinos) apontados para mim. De alguma forma, eu não estava sendo acolhedora. Legal, e para as pessoas afetadas por esse tipo de “piada”, sujeitas a isso durante uma vida e buscando um espaço para debater pautas com seriedade, o quão acolhedora é essa postura? Defendemos as mulheres, a comunidade LGBT, os não-binários, os inadequados. Desde que resguardado meu direito de ser babaca. Defendemos o debate aberto e a fala prioritária, desde que a palavra final seja minha.

Lembra das figuras do começo do relato? Eles continuavam lá. E eu estava esgotada. Várias das garotas adoeceram ou jogaram a toalha durante o processo.

Fui saindo de cena aos poucos, incapaz de lidar com todas as nuances das discussões, o peso para dividir com poucas pessoas, as discussões infindáveis entre as mesmas figurinhas inundando grupos com ego masculino a ser defendido a todo custo. Mulheres não tem tempo pra discussões sem rumo: mais da metade de nós tinha obrigações domésticas, filhos, além do trabalho, das pesquisas, da coordenação com lutas locais. Tínhamos de direcionar energia para questões estratégicas, aproveitar o melhor de nós, sob risco de inviabilizar nossa contribuição. Precisamos atrair as mulheres, eles dizem, temos pouca diversidade aqui, precisamos parar de afastar as mulheres. Mas sofremos um tipo de sabotagem constante.

Reparei como isso era comum, não apenas onde eu estava inserida, mas em diversos outros grupos independentes, de pautas comuns, humanitárias, progressistas. Poucas mulheres, pouco espaço, muitos clichês. Espaços preferenciais para falar sobre questões de gênero ou diversidade sexual, mas e o resto? Não quero que a minha luta por equidade seja restrita à expressão sobre equidade. Afinal, não devo ser reduzida, na minha atuação como cidadã, como indivíduo político, à minha condição de mulher: posso falar tranquilamente sobre questões de infraestrutura, sobre áreas de risco, sobre a atuação do poder judiciário, sobre patifarias políticas, e sobre mais ou menos qualquer outro assunto sobre o qual eu possa estudar e aprender.

Não é assim tão fácil. Apesar de eu ter sido, por bastante tempo, a única pessoa dentro dessa área de atuação no grupo, muitas vezes meus comentários ficavam perdidos, sem resposta, sem atenção. Vamos propor soluções para a sociedade, mas não essas, porque estamos ignorando nossa única contribuição nesse sentido. É até meio cômico, se for pensar, porque a gente é bom num geral em apontar essas atitudes escrotas do quintal pra fora. Nenhum político escapa das suas falas machistas, mas nós mulheres não escapamos dos nossos defensores, tão ávidos em nos calar para nos defender.

No fim, cansei e larguei mão de tentar contribuir ali. Não sei em que pé está a maior parte das pautas, mas sei que não sou bem vinda ali. Não sou bem vinda porque só posso opinar sobre as questões de gênero se estiverem alinhadas com determinados caciques, e naturalmente, que não favoreçam seus desafetos, não sou bem vinda porque sou uma extensão intelectual do meu namorado e não tenho cérebro próprio, mesmo nos assuntos que eu domino e ele não e tendo vivido 26 anos inteiros sem conhecê-lo até então, e tampouco sou bem vinda porque quero debater propostas de ação e projetos enquanto 90% das pessoas querem a sensação de estar numa espécie de clubinho intelectual sem se envolver de fato, querem confete e serpentinas e flashes, mas não a responsabilidade de trabalhar em conjunto.

Está muito longe de ser um problema desse grupo de pessoas: minha percepção pessoal é a de que a minha geração teve muito acesso à informação, tem muito idealismo, mas parou aí. Temos uma profusão de messias, dispostos a lutar pelos fracos e oprimidos impondo um desconfortável silêncio aos oprimidos, gerando ruídos de comunicação que inviabilizam completamente a participação de pessoas vulneráveis nas pautas, pela falta de direcionamento prático, pelos horários, pelas discussões sem fim por picuinhas pessoais, pela falta de diálogo e de noção pragmática. Pessoas que parecem estar brincando de política, sem disposição para transformação ou um mínimo de autocrítica; a mudança tem de vir numa bandeja de prata forrada em veludo.

Cada um tem seus ideais e sonhos particulares e temos de nos encaixar entre sonhos e ideais alheios e dar um jeito de acolher e proteger uns aos outros. Infelizmente, os grupos que se propõem a defender o que eu acredito vão mal na condução das lutas. Não me sinto nem representada nem acolhida, como, acredito, a esmagadora maioria de mulheres e outras minorias, cujas bandeiras são ótimas para ganho de imagem mas não tanto para construção coletiva. Se queremos de fato mudanças, se queremos coletivos inclusivos e transformadores de fato, é necessário refletir sobre como e por quê continuamos reproduzindo as mesmas sistemáticas silenciadoras e opressivas, buscando benefícios superficiais na imagem de desconstruídos e moderninhos.

Insiste-se em criar meios de “dar voz aos oprimidos”, aos comuns, aos fracos. O que querem dizer com isso? Não cabe a mim, a você ou a ninguém dar às pessoas a voz que elas já tem. Mas caberia parar de silenciar e aprender a ouvir.