Como ajudar a custear o Meet Up?

Na realização de qualquer evento ocorrem gastos e estes gastos precisam ser pagos. Desta forma, o Meet Up – Mana Pirata está recebendo doações para ajudar a custear o evento, uma vez que as inscrições não serão cobradas. Caso tenha interesse em colaborar com os custos do Meet Up – Mana Pirata, você poderá doar em mãos no dia do evento ou através do sistema de doação do PagSeguro (que permite pagar via boleto, cartão de crédito e transferência bancária).

Doação via PagSeguro: https://pag.ae/bclgxLQ

Já está no ar um portal da transparência que você pode acessar clicando no link, ou clicando aqui.

No dia do evento também estarão sendo vendidos bottons para ajudar a custear!

Primeira edição Meet Up Mana Pirata

 

A primeira edição do meet-up Mana Pirata pelo Coletivo Bucaneiras em parceria com PyLadies, Olabi e Luluzinhacamp, grupos atuantes no fomento da programação para mulheres, ocorre no próximo mês de julho no Rio de Janeiro.
Convidadas

Data: 01/07/2017 (sábado), a partir das 8:00
Local: Auditório do Sindicato dos Engenheiros.
Avenida Rio Branco, 277, 17º andar – Centro, Rio de Janeiro – RJ

Inscreva-se clicando aqui.

Machismo e “piratas”

Queria aproveitar a ocasião “festiva” para compartilhar algumas experiências pessoais.

Cresci em família de engenheiros; meus pais, meus avôs, em obras, em oficina mecânica. Turminha do metal, do RPG, dos games. Fiz escola técnica, entrei pro técnico, engenharia civil, estágio em obra, escritório, judiciário. Todos ambientes machistas, mas em nenhum deles jamais sofri discriminação. Entendo que o meu caso é um ponto fora da curva, que a maior parte das mulheres que eu conheço já foi questionada sobre sua capacidade: na escola, no trabalho, em seus projetos, em seus meios sociais, mas eu não fui. Talvez porque as mulheres da minha família tenham sido tão descaradamente, tão gritantemente desbravadoras em seus tempos, e eu fui criada num ambiente em que tinha esse modelo, em que nunca me senti diferente ou deslocada por ser mulher, e nunca tive dificuldade em me enbrenhar em nenhum espaço – embora tenha, sim, carregado pencas de preconceitos que só vieram a se dissolver mais tarde, e tenha passado uma vez ou outra por assédio, mas esse tipo de discriminação, nunca senti.

Até me envolver com alguns grupos políticos.

Não posso dizer que seja profundamente engajada ou envolvida com estudos ou ações diretas de qualquer grupo em particular, mas mesmo fora das linhas de frente achava que pudesse ter algo a contribuir, fosse ajudar a construir projetos em andamento, colaborar com outros grupos, divulgar, enfim. Acompanhei de perto junho de 2013. Acompanhei o surgimento, crescimento e algumas dissoluções de coletivos e partidos, todos alinhados em grande medida com coisas nas quais eu acredito, uma delas, a busca por uma sociedade mais igual, menos segregada por cor, por gênero, por orientação sexual, por poder aquisitivo. Grupos buscando ecoar mazelas demasiadamente mundanas para merecer as primeiras páginas dos jornais. Todos esses pregam, sem exceção, respeito à mulher, combate ao machismo, combate às opressões, respeito ao espaço e ao lugar de fala.

Esse ambiente foi, ironicamente, a minha escola para o machismo.

Logo que comecei a me envolver com projetos de um grupo em particular e conhecer as pessoas, conheci um garoto que gostava de conversar sobre as imposições sociais das relações entre as pessoas – a monogamia, as imposições de gênero, tabus. Pedia opiniões sobre poemas eróticos – não é minha praia, mas ok, vamos lá, algumas coisas sensíveis, outras não sei. Às vezes mensagens soltas, outras vezes mensagens ambíguas, que pareciam flertes, mas poderiam ser poemas? Nunca saberei.

Era assédio. Todas as garotas que apareciam para contribuir acabavam ouvindo as mesmas mensagens inconvenientes, os mesmos gracejos, as mesmas tentativas de aproximação. Em algum momento falei que incomodava. “Achei que você não fosse monogâmica”. Como assim? Soube que já tinha sido assim por anos: por maior que se possa defender a liberdade sexual das pessoas, fato é que um assediador em série continuava fazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito, totalmente livre, se aproveitando da confusão em se colocar em prática certas bandeiras, de liberdade de expressão ao punitivismo. Era assédio, e enquanto mulheres abandonavam esses espaços constrangidas, o mesmo homem continuava lá, enchendo o saco e dando chiliques sempre que questionado, mas livre. Tínhamos ainda a ilustre presença de outro indivíduo, declaradamente misógino, que não conseguia se conter frente a qualquer possibilidade de picuinhas com mulheres ou sobre o feminismo. Discutimos várias vezes. Independente do claro problema com a ala feminina, ainda embrionária, ele continuava sabotando as coisas por lá.

Seguimos.

Presenciei meus primeiros casos de mansplaining. Quando estávamos estruturando o coletivo feminista, pela enésima vez, tentando superar sabotagens e ataques emocionais de vários lados e as obrigações múltiplas das mulheres que estavam dispostas a ajudar, fomos surpreendidas por uma publicação no fórum interno de um indivíduo explicando qual seria a maneira “certa” de estruturar um coletivo feminista.

Você não leu errado, e neste ponto deve conseguir adivinhar quem foram os apoiadores da ideia. Respondi apontando o absurdo de sequer cogitar instruir as mulheres do coletivo, todas adultas e calejadas, sobre como nossos movimentos não tinham de ser do agrado dele, e outra garota escreveu ainda mais demoradamente. Fomos rechaçadas em Fórum sob acusações infantis, daquelas que tentam inverter os papeis de oprimido e opressor. As meninas malvadas questionando os meninos que só querem ajudar. Ok.

Tivemos outros problemas no percurso. Decidimos fundar em definitivo o coletivo e definir as atribuições para lidar com questões de gênero e eventuais casos de assédio.

Um grupo tão alinhado com pautas progressistas e combate à opressão, e começamos a sofrer gaslighting dos homens bem intencionados com as questões de gênero.

Soa absurdo? Uma das meninas ouviu, de um dos pavões, que seriam escolhidas mulheres “de confiança” para acompanhar casos de assédio – leia-se, da confiança dele. Nas cochias, quando debatia propostas delicadas para as nossas pautas, questionaram a minha capacidade de opinar sobre o assunto – sim, sobre a forma de as mulheres conduzirem o tema – porque eu namorava outro rapaz do mesmo grupo político, do qual meu interlocutor era antagonista declarado. Não sei exatamente em que ponto minha capacidade analítica e opinião passaram a ser uma extensão do meu companheiro afetivo, mas é assim que fui lida. Em outra discussão, três garotas apontaram os mesmos problemas, que foram respondidos somente após um quarto elemento, um homem, apontar o mesmo problema. Nós ficamos sem resposta, ele não.

Apontei , durante uma outra conversa, o desconforto com uma dessas piadinhas inocentes (e sexistas) que as pessoas contam. Não fiz escândalo. Só expliquei que, naquele ambiente, pelo que estávamos tentando defender e construir, esse tipo de piada não era adequada. Em questão de minutos tinha uma dezena de dedos (masculinos) apontados para mim. De alguma forma, eu não estava sendo acolhedora. Legal, e para as pessoas afetadas por esse tipo de “piada”, sujeitas a isso durante uma vida e buscando um espaço para debater pautas com seriedade, o quão acolhedora é essa postura? Defendemos as mulheres, a comunidade LGBT, os não-binários, os inadequados. Desde que resguardado meu direito de ser babaca. Defendemos o debate aberto e a fala prioritária, desde que a palavra final seja minha.

Lembra das figuras do começo do relato? Eles continuavam lá. E eu estava esgotada. Várias das garotas adoeceram ou jogaram a toalha durante o processo.

Fui saindo de cena aos poucos, incapaz de lidar com todas as nuances das discussões, o peso para dividir com poucas pessoas, as discussões infindáveis entre as mesmas figurinhas inundando grupos com ego masculino a ser defendido a todo custo. Mulheres não tem tempo pra discussões sem rumo: mais da metade de nós tinha obrigações domésticas, filhos, além do trabalho, das pesquisas, da coordenação com lutas locais. Tínhamos de direcionar energia para questões estratégicas, aproveitar o melhor de nós, sob risco de inviabilizar nossa contribuição. Precisamos atrair as mulheres, eles dizem, temos pouca diversidade aqui, precisamos parar de afastar as mulheres. Mas sofremos um tipo de sabotagem constante.

Reparei como isso era comum, não apenas onde eu estava inserida, mas em diversos outros grupos independentes, de pautas comuns, humanitárias, progressistas. Poucas mulheres, pouco espaço, muitos clichês. Espaços preferenciais para falar sobre questões de gênero ou diversidade sexual, mas e o resto? Não quero que a minha luta por equidade seja restrita à expressão sobre equidade. Afinal, não devo ser reduzida, na minha atuação como cidadã, como indivíduo político, à minha condição de mulher: posso falar tranquilamente sobre questões de infraestrutura, sobre áreas de risco, sobre a atuação do poder judiciário, sobre patifarias políticas, e sobre mais ou menos qualquer outro assunto sobre o qual eu possa estudar e aprender.

Não é assim tão fácil. Apesar de eu ter sido, por bastante tempo, a única pessoa dentro dessa área de atuação no grupo, muitas vezes meus comentários ficavam perdidos, sem resposta, sem atenção. Vamos propor soluções para a sociedade, mas não essas, porque estamos ignorando nossa única contribuição nesse sentido. É até meio cômico, se for pensar, porque a gente é bom num geral em apontar essas atitudes escrotas do quintal pra fora. Nenhum político escapa das suas falas machistas, mas nós mulheres não escapamos dos nossos defensores, tão ávidos em nos calar para nos defender.

No fim, cansei e larguei mão de tentar contribuir ali. Não sei em que pé está a maior parte das pautas, mas sei que não sou bem vinda ali. Não sou bem vinda porque só posso opinar sobre as questões de gênero se estiverem alinhadas com determinados caciques, e naturalmente, que não favoreçam seus desafetos, não sou bem vinda porque sou uma extensão intelectual do meu namorado e não tenho cérebro próprio, mesmo nos assuntos que eu domino e ele não e tendo vivido 26 anos inteiros sem conhecê-lo até então, e tampouco sou bem vinda porque quero debater propostas de ação e projetos enquanto 90% das pessoas querem a sensação de estar numa espécie de clubinho intelectual sem se envolver de fato, querem confete e serpentinas e flashes, mas não a responsabilidade de trabalhar em conjunto.

Está muito longe de ser um problema desse grupo de pessoas: minha percepção pessoal é a de que a minha geração teve muito acesso à informação, tem muito idealismo, mas parou aí. Temos uma profusão de messias, dispostos a lutar pelos fracos e oprimidos impondo um desconfortável silêncio aos oprimidos, gerando ruídos de comunicação que inviabilizam completamente a participação de pessoas vulneráveis nas pautas, pela falta de direcionamento prático, pelos horários, pelas discussões sem fim por picuinhas pessoais, pela falta de diálogo e de noção pragmática. Pessoas que parecem estar brincando de política, sem disposição para transformação ou um mínimo de autocrítica; a mudança tem de vir numa bandeja de prata forrada em veludo.

Cada um tem seus ideais e sonhos particulares e temos de nos encaixar entre sonhos e ideais alheios e dar um jeito de acolher e proteger uns aos outros. Infelizmente, os grupos que se propõem a defender o que eu acredito vão mal na condução das lutas. Não me sinto nem representada nem acolhida, como, acredito, a esmagadora maioria de mulheres e outras minorias, cujas bandeiras são ótimas para ganho de imagem mas não tanto para construção coletiva. Se queremos de fato mudanças, se queremos coletivos inclusivos e transformadores de fato, é necessário refletir sobre como e por quê continuamos reproduzindo as mesmas sistemáticas silenciadoras e opressivas, buscando benefícios superficiais na imagem de desconstruídos e moderninhos.

Insiste-se em criar meios de “dar voz aos oprimidos”, aos comuns, aos fracos. O que querem dizer com isso? Não cabe a mim, a você ou a ninguém dar às pessoas a voz que elas já tem. Mas caberia parar de silenciar e aprender a ouvir.

O ameaçador feminismo e a masculinidade frágil

Por Bucaneiras e Sereia Ciclista

Não se nasce homem, torna-se machista?

Em plena virada de ano, doze vidas foram perdidas em um massacre anunciado por uma carta de ódio. Tragédia, chacina, feminicídio e misoginia foram algumas das palavras utilizadas para descrever os acontecimentos, e todas registram fielmente as nuances do crime cometido, o seu caráter político e a violência odiosa contra as mulheres. As raízes desta tragédia não estão nada distantes de nós. Ao contrário, estão presentes lá no fundo de nossas mentes, de nossas lembranças. Nosso inconsciente, captando passivamente todos os pequenos detalhes de nossas vivências, trata de, naturalmente, reproduzí-las consciente e inconscientemente. As piadinhas e estereótipos que crescemos ouvindo e reproduzindo por anos e anos acabam servindo, na realidade, para preparar um terreno igualmente e extremamente hostil no qual o futuro irá se sustentar. A socialização acaba sendo um fator definitivo no que concerne às opiniões dos homens sobre as mulheres no decorrer de suas vidas, e isso está além de palavras jogadas ao vento. Trata-se de ofensas diárias, humilhações, agressões físicas e assassinatos.

Gostaríamos aqui de propor uma reflexão, não sobre a vítima, mas sobre o poder do discurso, a força política transformadora da mulher e o vazio argumentativo entre os homens que se dizem “feministas”.

O discurso é um elemento fundamental para a construção da nossa percepção sobre o mundo em que vivemos. Através dele construímos e comunicamos categorias para explicar e embasar nossa atuação. Portanto, todo discurso é político em sua concepção. As palavras que escolhemos, o significado que as atribuímos e como as organizamos são reflexos de nossas crenças e compreensão de mundo, e ao reproduzirmos um discurso nós colaboramos para a sua renovação, ou seja, seu fortalecimento. A carta produzida pelo assassino traz uma narrativa de mundo que nos soa familiar pois é fruto de um senso comum reproduzido nas rodas de amizades entre homens que raramente é questionado dentro destes ambientes. Sua presença nas redes sociais segue os mesmos mecanismos que reforçam o preconceito e o ódio FORA destas redes. Mais ainda: têm suas consequências ampliadas, fenômeno conhecido e explicado pela socióloga Karen Knorr Cetina:

“Efeitos de desproporcionalidade podem ser extraídos, por exemplo, do uso da tecnologia, da ciência e outras inovações, e dos diversos tipos de “mídias” usadas como sistemas amplificadores e multiplicadores. […] os elementos de coordenação envolvidos não são do tipo que associamos com autoridade formal, hierarquias complexas, procedimentos racionalizados ou estruturas institucionais profundas. Na verdade, os mecanismos envolvidos podem ser similares aos que encontramos em situações face-a-face, mas ao mesmo tempo sustentam arranjos à distância e sistemas distribuídos”. (tradução nossa, CETINA, 2005, p.214 – 215)

Deste modo, fica fácil entender como as redes sociais também funcionam como espaços de organização e potencialização do discurso que afirma o ódio contra a mulher. A grande diferenciação entre os círculos masculinos nos bares e praças e nas redes está no alcance e reprodutibilidade da mensagem produzida, ou seja, indivíduos antes isolados ou cerceados por controles pessoais de moralidade podem encontrar-se na rede e reafirmar seus preconceitos com pessoas que os incentivam. No entanto, estas mesmas tecnologias são apropriadas por movimentos sociais que lutam por igualdade de direitos entre homens e mulheres. São inúmeros os coletivos feministas e de mídia livre que buscam espalhar sua mensagem, muitos dos quais produziram textos utilizados aqui como referência. A atuação destes grupos é construtora do discurso que nos permite ler o mundo de diferentes formas, sendo o feminismo o movimento ímpar de construção e definição destas categorias políticas que permitiram a conquista de tantos espaços:

“As feministas trabalharam em várias frentes: criaram um sujeito político coletivo — as mulheres — e tentaram viabilizar estratégias para acabar com a sua subordinação. Ao mesmo tempo procuram ferramentas teóricas para explicar as causas originais dessa subordinação.” Piscitelli (2001, p.3)

Uma das primeiras reflexões do movimento feminista é sobre a construção do “outro” chamado de “mulher”, uma categoria que é tratada como diferente do homem, que por sua vez seria o padrão da pessoalidade, da cognição e da linguagem. O que se iniciou como uma revolta contra a desigualdade de tratamento e a opressão logo se expandiu para uma relativização do gênero como prisão e o reconhecimento de inúmeras possibilidades de “ser mulher” para além das convenções machistas estabelecidas no passado. O que era considerado feminino foi alvo de reflexão, implicando não em seu descarte, mas em sua reinterpretação e sua transformação em potencial de escolha e atuação não definitivas.

“O leitor pode agora se perguntar como defino a feminilidade ou onde estabeleço a fronteira entre a feminilidade genuína e a ‘mascarada’. Minha sugestão, contudo, é que não há tal diferença; radicais ou superficiais, elas são a mesma coisa.” Butler (2003, p.86)

A capacidade dos movimentos feministas de se reinventarem e narrarem o mundo através do seu discurso possibilitou a conquista de muitos direitos que antes inexistiam para as mulheres e também amplo reconhecimento na sociedade. É perceptível como a cultura patriarcal tradicional se sente incomodada pela atuação de grupos feministas. A crítica à sua atuação é encontrada facilmente nos discursos destes opositores, assim como fora reproduzido na carta do assassino em sua crítica à lei Maria da Penha, bem como ao afirmar que sua antiga companheira “foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos”. O feminismo é visto como uma ameaça à sobrevivência da masculinidade. A despeito das grandes conquistas alcançadas pelo movimento feminista, é interessante observar como os homens que participaram deste movimento não obtiveram sucesso semelhante em redefinir o conceito de homem e de masculinidade com o “movimento de liberação masculina” (Men’s liberation movement) e os “estudos do homem” (Men’s Studies).

Não só academicamente, mas também no seio da própria militância, vemos os homens deixarem que as definições do que é “ser homem” e “ser macho” serem monopolizadas pelas mesmas tradições problemáticas que ensinam a violência como forma de autoafirmação, a anulação do emocional como prova de força, a sexualidade como valor em si, o moralismo patriarcal religioso e a objetificação da mulher como caminho natural do masculino. O pai do assassino definiu seu filho como “Tímido e retraído, ninguém sabia pelo que estava passando […] um amor de pessoa. Não bebia, não fumava”, sua incapacidade em descrever seu filho para além do consumo de drogas é um exemplo claro do distanciamento paternal e da falha da socialização que não permite a aproximação afetiva de pai e filho e cujo valor acaba sendo determinado por convenções rasas. Segundo uma das professoras de João Victor, filho do assassino, o menino não gostava do pai e havia prometido que quando crescesse iria matá-lo (mais uma prova de uma socialização frágil criada por um masculino frágil e defeituoso).

Por fim, cabe a pergunta: podemos acreditar em uma mudança significativa da nossa sociedade fundamentada na militância ativa dos homens pró-feminismo não só em defesa das mulheres, mas para com seus semelhantes?
Podemos confiar que metade da população terrestre irá abdicar de seus hábitos incontestados e reforçados pela mídia e cultura sem que haja uma forte oposição dos próprios homens para que isso aconteça?
Em tempos de reclamação sobre o protagonismo e a participação dos homens no movimento feminista, a ampla frente de trabalho que exige dos homens sua ação está abandonada à própria sorte enquanto o masculino segue assumido como indiscutível e natural. É preciso repensar a masculinidade tóxica, já tão naturalizada em nós, pelo bem de todos.

Increva-se https://www.youtube.com/channel/UCd0w23TdxCa39_DHATSPCEg

Fontes:http://www.culturaegenero.com.br/download/praticafeminina.pdf
http://docslide.com.br/documents/butler-judithproblemas-de-generocompletopdf.html
http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2017/01/a-tragedia-anunciada-do-eterno-odio.html
http://www.geledes.org.br/chacina-em-campinas-e-o-odio-que-se-transforma-em-maquina-de-matar-mulheres/#gs.enFgcfU
http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2017/01/veja-quem-sao-vitimas-da-chacina-em-festa-de-reveillon-em-campinas.html
http://www.shoujo-cafe.com/2017/01/mais-um-massacre-algumas-palavras-sobre.html
https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/02/o-monstro-sobre-a-chacina-de-campinas-misoginia-e-noticias/
CETINA,Karen Knorr. ComplexGlobal Microstructures: TheNew Terrorist Societies. Theory, Culture & Society vol. 22. TheTCS Centre, Nottingham Trent University, 2005.

Pioneiras antes da história

O 8 de março, já há alguns anos, é marcado por alusões a mulheres inovadoras e pioneiras, que quebraram barreiras existentes em seu (e no nosso) tempo.

Acho ótimo.

Mas muito além de Ada Lovelace, Ruth Brown, Hedy Lamarr, Katherine Johnson e tantas outras, é um pouco irritante ver sempre histórias sobre “a primeira mulher médica” ou “a primeira engenheira” ou “a primeira professora”. Sim, são fatos históricos relevantes, por um lado, por outro, me parece uma imensa injustiça histórica.

Por que? Porque mulheres sempre fizeram isso.

Mulheres eram médicas com suas ervas e conhecimento passado entre mulheres muito antes da medicina. Mulheres eram filósofas, matemáticas e astrônomas, mulheres decifravam os ciclos da natureza e a agricultura antes do estabelecimento do método científico, mulheres sempre foram professoras e líderes espirituais em suas comunidades e suas famílias. A ideia de que homens sempre foram curiosos e exploradores, que olhavam para o céu e decifravam o comportamento dos astros enquanto nós ficamos com a cabeça aqui parindo filhos é muito mesquinha. A humanidade sempre teve a mesma centelha de barbárie e de curiosidade, de desenvolvimento e inovação, antes que a história da humanidade fizesse parte de um registro, e nós somos parte dela.

Historicamente, temos uma primeira mulher a ingressar na NASA, mas quem foi a primeira mulher a olhar para o céu e planejar os ciclos cotidianos de acordo com as estrelas ou a lua? Temos uma primeira mulher engenheira, mas quem terá sido a primeira mulher a desenvolver uma casa com material disponível com as próprias mãos? Essas linhagens vão muito além de nós.

Por que, então, estou falando disso? Parece que estou querendo minimizar os feitos de mulheres que hoje, com muito esforço, tem seus nomes reconhecidos? Claro que não.

Quero apontar que mulheres sempre exerceram todas essas funções, socialmente, cotidianamente, e se não há inscrições anteriores a isso ao século passado que seja, é porque fomos impedidas: o humanidade fez um esforço consciente, ativo, buscado e construído de aniquilação da mulher. A mulher não era letrada porque era impedida, não entrava nas universidades porque era impedida, não cuidava da própria vida porque era proibida, obrigada legalmente a ter a tiracolo um homem, e ah, pobre da mulher que perdesse todos para a guerra, para a fome, para a peste…impedida de ser a dona da própria vida, sem um dono que respondesse por ela!

As grandes mulheres cujos nomes reconhecemos hoje foram as mulheres que conseguiram seu lugar APESAR do boicote. Nem todas tiveram essa sorte.

Devemos celebrar cada uma dessas mulheres incríveis, pioneiras, sim, cada uma com uma contribuição ao mundo que conhecemos hoje, e um passo além no reconhecimento do nosso espaço. Mas creio que seja hora de ir além, e começar a corrigir essa ideia de que a nossa participação começou com elas. Nós sempre estivemos lá, o mundo não existe sem as mãos das mulheres, nós só tivemos nossos nomes roubados dos livros.

“Ao longo da maior parte da história, Anônimo era uma mulher.” (Vinginia Woolf)

Ninguém simplesmente aprende a programar

por Camila Vilarinho, no Medium.

Quando eu comecei a programar, passei por muita frustração por me achar burra ou achar que aquilo não era para mim.

Porque eu não conseguia se para os meninos da minha turma parecia tão fácil? Eu não estava sozinha nessa dúvida, com esse sentimento. Todo mundo que está começando a programar se sente assim em algum momento.

Então queria começar dizendo uma coisa para você: Você não é burr@!

Ultimamente eu tenho encontrado muita gente que está começando a aprender a programar e está cheio de dúvidas, procurando material e fazendo suas primeiras tentativas nesse mundo incrível.

Mas sempre que eu passo referência de algum material ou ajudo alguém que tá começando, eu fico com a sensação de que eu deveria falar mais, que eu deveria alertar que a pessoa vai se decepcionar em algum momento, que vai achar difícil e que vai pensar em desistir.

Às vezes eu falo, “Se tiver alguma dúvida pode perguntar” ou “É assim mesmo, no começo vai ser difícil, mas depois você vai ver como é divertido”. Sempre fica faltando falar algo. Então decidi traduzir esse texto. Ele um dos meus textos favoritos, porque me senti tão contemplada quando o li.

Antes de qualquer coisa quero que você entenda isso:

Ninguém simplesmente aprende a programar

Ninguém simplesmente aprende a programar. Porque programar não é fácil. Programar é difícil. Todo mundo sabe disso — Qualquer pessoa que já tenha vasculhado um stack trace — ou quebrado a cabeça com um bug — pode te confirmar isso.

Infelizmente, existem vários marqueteiros por aí tentando faturar com a noção de que “programar é fácil” Ou que será, se você usar os produtos deles.

“Ouvir o keynote do WWDC falando que programar não é difícil me frustra. É extremamente difícil. Vocês estão preparando iniciantes para grandes decepções.”

Quando alguém te fala que programar é fácil, ele está te fazendo um enorme desserviço. Isso só pode ser colocado de uma das três maneiras:

Cenário 1:
Pessoa 1: “Eu tentei aprender a programar uma vez. Eu tive muita dificuldade. A vida seguiu seu rumo, e eu não estou mais tentando aprender a programar.”

Marqueteiro: “Programar é fácil!”

Pessoa 1: “O que? Oh, talvez programar seja fácil, afinal de contas. Talvez eu que seja burro.”

Cenário 2:
Pessoa 2: “Eu quero aprender a programar, mas parece difícil.”

Marqueteiro: “Programar é fácil!”

Pessoa 2: “Sério?”

Marqueteiro: “Sim. Compre meu curso/programa/e-book e você será um programador de elite em menos de um mês.”

Pessoa 2:

Pessoa 2 um mês depois: “Eu pensei que programar fosse uma coisa fácil, talvez eu que seja burro.”

Cenário 3:
Pessoa 3: “Eu não tenho nenhum interesse em aprender a programar algum dia. Eu sou um gerente de sucesso. Se um dia eu precisar de algo programado, eu apenas pago alguém para fazer isso para mim.”

Marqueteiro: “Programar é fácil!”

Pessoa 3: “Ah, ok. Nesse caso, eu acho que não vou pagar aqueles programadores muito, ou dar muito valor ao seus trabalhos.”

Cirurgia Cerebral é fácil

Dizer “Programar é fácil!” é como dizer “Cirurgia Cerebral é fácil!” ou “Escrever romances é fácil!”

Um Neurocirurgião em um jantar diz à romancista Margret Atwood: “Eu sempre quis escrever. Quando eu me aposentar e tiver tempo, eu vou ser um escritor”

Margaret Atwood responde: “Que coincidência, porque quando eu me aposentar, eu vou ser uma neurocirurgiã”

E ainda assim os marqueteiros continuam dizendo: “Programar é fácil”, “Programar não é tão difícil” ou meu preferido: “Programar é fácil, é o que é difícil!”

E tudo o que esses marqueteiros conseguem dizendo isso é fazer com que as pessoas se sintam burras — algumas vezes levado seu dinheiro no processo

A maldição do conhecimento

Infelizmente, não são só os marqueteiros que falam que programar é fácil. Eu conheço desenvolvedores experientes todo tempo que também dizem “Programar é fácil!”

Porque alguém que passou pelas milhares de horas que se leva para se tornar um bom programador diz que programar é fácil? Porque eles estão sofrendo de um vies cognitivo chamado a Maldição do conhecimento. Eles não conseguem lembrar como era não saber programar. E mesmo se puderem, eles provavelmente já esqueceram como programação foi difícil para eles no início.

A maldição do conhecimento previne que muitos desenvolvedores experientes sejam capazes de empatizar com iniciantes. E em nenhum lugar essa falta de empatia é mais aparente do que no resultado do google favorito de todos: o tutorial de programação.

Como desenhar um cavalo: 1. Desenhe 2 círculos; 2. Desenhe as pernas; 3. Desenhe o rosto; 4. Desenhe o cabelo; 5. Adicione pequenos detalhes.

Quantas vezes você já foi realmente capaz de finalizar um tutorial aleatório que você encontrou no google, sem ficar desorientado por algum erro misterioso ou ambiguidade?

E a pior coisa sobre esse processo é quando o autor do tutorial inconscientemente recheia suas instruções com palavras como “Obviamente”, “Facilmente” e a mais debochada de todas “Simplesmente”

Nada é mais frustrante do que travar em um passo que diz “Simplesmente integre com a API do Salesforce” ou “Simplesmente faça o deploy para o AWS” depois de passar 30 minutos em um tutorial

E quando isso acontece, a voz de milhares de marqueteiros ecoam na sua cabeça: “Programar é fácil!”

Você vai lembrar daqueles desenvolvedores experientes que você conheceu semanas atrás que deram o seu melhor tentando te incentivar dizendo: “Programar é fácil!”

Você até terá flashbacks de todos aquelas cenas ruins de hackings de Hollywood onde eles fazem programar parecer tão fácil.

Antes que você perceba, você de repente ouve o som da própria voz gritando, sentir seu corpo se erguendo e (╯°□°)╯︵ ┻━┻

Mas tudo bem, respire fundo. Programar não é fácil. Programar é difícil. Todo mundo sabe disso.

Nada é Simples

Existe uma boa chance de você encontrar a palavra “simplesmente” em um tutorial, esse tutorial vai presumir muito sobre o seu conhecimento prévio.

Talvez o autor presuma que você tenha programado algo similar antes e está usando o tutorial apenas como referência. Talvez o autor escreveu o tutorial com ele mesmo em mente como seu público alvo.

De qualquer maneira, existe a grande chance de o tutorial não ter sido projetado para alguém com o seu nível exato de habilidades de programação.

Portanto a regra do “Simplesmente”:

Não use a palavra simplesmente nos seus tutoriais e não use tutorias que usam a palavra simplesmente

O restante do artigo você encontra aqui.

Agora estamos entendidos: programar não é fácil, mas nada é!

Existe muita informação por aí, várias opções de coisas por onde começar, várias linguagens de programação, frameworks, IDEs, um mundo de tecnologias diferentes para escolher, estudar e aprender. E para quem está começando pode ficar a sensação de que você nunca vai aprender tudo e ficar bom nisso.

Calma!

  • Escolhe o que está mais próximo dos seus objetivos e dá um passo de cada vez
  • Divide as coisas grandes em pedaços pequenos
  • Coloca em prática o que você aprende

E mais importante: mesmo sabendo disso, os momentos de frustração vão vir.

Mas não se preocupe, eles vêm para todo mundo. O bom de você saber de antemão sobre isso, é saber também que esse sentimento de frustração vai passar e se transformar em aprendizado.

Depois, a alegria de ver na tela algo que você fez vai ser muito maior e é dela que você vai lembrar! ❤