Aaron Swartz, Sci-Hub e o conhecimento livre contra o castelo de burocracias das editoras

Por: Ana Freitas, Mila Holz e Tatiana Kawamoto

Se você acompanhou as notícias de tecnologia nos últimos cinco anos deve se lembrar do caso Aaron Swartz e seu trágico desfecho.

Em 2013, Aaron Swartz, programador de computadores e ativista pela liberdade na Internet, cometeu suicídio aos 26 anos.

A história de Aaron e o impacto de suas criações no mundo não se limitam a esses 5 anos de maior visibilidade. Já aos 14, Aaron desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do software RSS, que ainda é usado por milhões de pessoas para acompanhar o que lêem na net. Além disso, desenvolveu o Reddit, o popular site de notícias e rede social. Quando a editora Condé Nast comprou o Reddit, Swartz recebeu uma soma substancial de dinheiro, ainda muito jovem, mas, Aaron nunca fez ABSOLUTAMENTE nada por dinheiro. Sua preocupação e engajamento norteadores era o livre acesso ao conhecimento.

Aaron atuou pela transparência e liberdade de informação em diversas vertentes. Na esfera pública, difundiu uma ferramenta para o acompanhamento da atuação dos congressistas americanos, adquiriu todo o pacote de dados bibliográficos do Congresso – que eram públicos, mas tinham acesso tarifado – e os republicou como parte do acervo da Universidade de Plymouth, tornando seu acesso definitivamente público. Atuou de maneira parecida em relação ao serviço PACER do sistema de justiça federal americano, que cobrava pelo acesso apesar de o serviço e os documentos serem públicos. Colaborou com diversos projetos, todos com sua importância na democratização do conhecimento: Wikipedia, sistema TOR, e atuou contra a aprovação do SOPA (Stop Online Piracy Act), um projeto de lei que dava uma espécie de super poderes a detentores de direitos autorais em medidas legais contra o compartilhamento de material via internet.

Aaron Swartz é um exemplo do desequilíbrio de forças entre os interesses de pessoas e grandes corporações. Em uma de suas ações de popularização e livre acesso ao conhecimento, da mesma maneira que havia feito antes com o material bibliográfico do Congresso e do sistema PACER, Aaron resolveu disponnibilizar os artigos científicos para acesso livre e gratuito. Ele usou o acesso que tinha à biblioteca virtual do MIT para baixar todos os artigos científicos da instituição com a intenção de torná-los públicos em seguida. Não havia lei que o proibisse, apesar dele já antecipar que a comoção seria maior do que com os arquivos do Congresso e o PACER. A desconfiança se concretizou, Aaron foi processado pela JSTOR e pelo MIT pela ação, mesmo não havendo crime previsto em lei. Após anos de disputa contra processos impetrados pelas empresas detentoras dos direitos de publicação de pesquisas, incapaz de revidar com igual vigor contra um batalhão de advogados, cerca de dois anos após o início dos processos Aaron foi encontrado morto em casa, sob suspeita de suicídio. Apenas após sua morte a Promotoria Federal optou por retirar as acusações.

Mas como já aconteceu em outros âmbitos, o compartilhamento de informações na internet é um caminho sem volta. Aaron não estava sozinho, sua batalha jurídica conseguiu comover os cientistas e pesquisadores de todas as áreas e em 2012 teve seu auge com Harvard anunciando que não pagaria para ler mais nenhum artigo científico e recomendando que sua comunidade passasse a usar o sistema de Open Access (Acesso Aberto). Outro grupo de cientistas no mesmo ano começou a organizar o boicote à Elsevier, uma das maiores editoras de revistas científicas do mundo. Mesmo após a morte de Aaron, outro site dedicado a disponibilizar pesquisas científicas restringidas por “paywalls”, o Sci-Hub de Alexandra Elbakyan ganhou enorme popularidade no meio acadêmico. Alexandra desenvolvia uma pesquisa no campo de neurotecnologia e tinha dificuldade em desenvolver seus trabalhos em função das restrições de acesso das revistas, que liberam conteúdo mediante pagamento.

A quem pertence o conhecimento?

Assim como aconteceu com Aaron, o Sci-Hub enfrenta processos movidos por grandes corporações e publicações científicas, por violação de direitos autorais e patentes. No último 7 de novembro, uma corte da Virgínia Ocidental decidiu em favor da Sociedade Química Americana (American Chemical Society – ACS) solicitando o fechamento do Sci-Hub e a remoção do site dos mecanismos de busca na internet. Em junho, outro processo movido pela Elsevier requisitava indenização pela violação dos direitos autorais. Alexandra alega não ter intenção de pagar esta indenização – e o mesmo deve valer para a ACS.

Ao impetrar processos por violação de direitos autorais e danos monetários pelo compartilhamento das publicações, as empresas e veículos agem como donos daquela parcela do conhecimento contida nesses papeis, como proprietários da observação e de conclusões obtidas pelo método científico que não se originaram nessas empresas, mas foram construídos sobre todo o conhecimento acumulado e que possibilitou essas realizações. Certamente, essas revistas e empresas não desenvolveram todo o conhecimento necessário para suas pesquisas do zero, de forma que estão se apropriando indevidamente de trabalhos e conhecimento desenvolvidos ao longo de dezenas, às vezes centenas, de anos – além de lucrar com isso, num arranjo bastante conveniente para as empresas que tem o poder de barganha para brigar por isso.

 

O conhecimento e a crise

 

O resultado dessas disputas é particularmente emblemático considerando o momento geopolítico e econômico atravessado atualmente – incluindo-se aí a crise americana entre 2007 e 2009 e a crise brasileira, que se arrasta desde meados de 2015.

 

No Brasil, os sucessivos cortes de verbas e investimentos em pesquisa e educação tem causado a evasão de profissionais e sucateamento das pesquisas, uma vez que boa parte delas é financiada em universidades públicas. Enquanto bolsas são cortadas e insumos de todo tipo negados às equipes de pesquisa, o acesso a publicações poderia atenuar a queda na produção científica brasileira – afinal, informação e conhecimento deveriam ser, para esse efeito, públicos. A guerra a sites como o Sci-Hub pode acentuar ainda mais a concentração de conhecimento nos indivíduos e instituições que podem pagar por ela, trazendo como efeito colateral a fragilização do nosso desenvolvimento. Os efeitos podem não ser imediatos, mas certamente se traduzirão em perdas econômicas e maior dependência tecnológica do país no futuro.

Mesmo que as editoras de revistas científicas tenham conseguido reverter os prejuízos ao se adaptarem a um novo modelo de negócios buscando lucrar cobrando dos pesquisadores pela publicação dos trabalhos, a concientização para a questão do livre acesso nunca foi tão disseminada e a possibilidade de desenvolver sistemas alternativos de editoração, mais democráticos e livres, nunca foi tão acessível no mundo. Novas formas de compartilhar informação ainda surgirão nos próximos anos. Aaron vive em toda a repercussão que teve no mundo, e esta repercussão não vai terminar tão cedo. Aaron tornou-se espírito e símbolo da liberdade da informação. Hoje,o que emerge é um vasto novo domínio  de conhecimento compartilhado e novas forma de comunicação e de cooperação.

“Venceremos esta luta porque todos nos tornamos heróis de nossas próprias histórias.” – Aaron Swartz

 

Como ajudar a custear o Meet Up?

Na realização de qualquer evento ocorrem gastos e estes gastos precisam ser pagos. Desta forma, o Meet Up – Mana Pirata está recebendo doações para ajudar a custear o evento, uma vez que as inscrições não serão cobradas. Caso tenha interesse em colaborar com os custos do Meet Up – Mana Pirata, você poderá doar em mãos no dia do evento ou através do sistema de doação do PagSeguro (que permite pagar via boleto, cartão de crédito e transferência bancária).

Doação via PagSeguro: https://pag.ae/bclgxLQ

Já está no ar um portal da transparência que você pode acessar clicando no link, ou clicando aqui.

No dia do evento também estarão sendo vendidos bottons para ajudar a custear!

Primeira edição Meet Up Mana Pirata

 

A primeira edição do meet-up Mana Pirata pelo Coletivo Bucaneiras em parceria com PyLadies, Olabi e Luluzinhacamp, grupos atuantes no fomento da programação para mulheres, ocorre no próximo mês de julho no Rio de Janeiro.
Convidadas

Data: 01/07/2017 (sábado), a partir das 8:00
Local: Auditório do Sindicato dos Engenheiros.
Avenida Rio Branco, 277, 17º andar – Centro, Rio de Janeiro – RJ

Inscreva-se clicando aqui.

Machismo e “piratas”

Queria aproveitar a ocasião “festiva” para compartilhar algumas experiências pessoais.

Cresci em família de engenheiros; meus pais, meus avôs, em obras, em oficina mecânica. Turminha do metal, do RPG, dos games. Fiz escola técnica, entrei pro técnico, engenharia civil, estágio em obra, escritório, judiciário. Todos ambientes machistas, mas em nenhum deles jamais sofri discriminação. Entendo que o meu caso é um ponto fora da curva, que a maior parte das mulheres que eu conheço já foi questionada sobre sua capacidade: na escola, no trabalho, em seus projetos, em seus meios sociais, mas eu não fui. Talvez porque as mulheres da minha família tenham sido tão descaradamente, tão gritantemente desbravadoras em seus tempos, e eu fui criada num ambiente em que tinha esse modelo, em que nunca me senti diferente ou deslocada por ser mulher, e nunca tive dificuldade em me enbrenhar em nenhum espaço – embora tenha, sim, carregado pencas de preconceitos que só vieram a se dissolver mais tarde, e tenha passado uma vez ou outra por assédio, mas esse tipo de discriminação, nunca senti.

Até me envolver com alguns grupos políticos.

Não posso dizer que seja profundamente engajada ou envolvida com estudos ou ações diretas de qualquer grupo em particular, mas mesmo fora das linhas de frente achava que pudesse ter algo a contribuir, fosse ajudar a construir projetos em andamento, colaborar com outros grupos, divulgar, enfim. Acompanhei de perto junho de 2013. Acompanhei o surgimento, crescimento e algumas dissoluções de coletivos e partidos, todos alinhados em grande medida com coisas nas quais eu acredito, uma delas, a busca por uma sociedade mais igual, menos segregada por cor, por gênero, por orientação sexual, por poder aquisitivo. Grupos buscando ecoar mazelas demasiadamente mundanas para merecer as primeiras páginas dos jornais. Todos esses pregam, sem exceção, respeito à mulher, combate ao machismo, combate às opressões, respeito ao espaço e ao lugar de fala.

Esse ambiente foi, ironicamente, a minha escola para o machismo.

Logo que comecei a me envolver com projetos de um grupo em particular e conhecer as pessoas, conheci um garoto que gostava de conversar sobre as imposições sociais das relações entre as pessoas – a monogamia, as imposições de gênero, tabus. Pedia opiniões sobre poemas eróticos – não é minha praia, mas ok, vamos lá, algumas coisas sensíveis, outras não sei. Às vezes mensagens soltas, outras vezes mensagens ambíguas, que pareciam flertes, mas poderiam ser poemas? Nunca saberei.

Era assédio. Todas as garotas que apareciam para contribuir acabavam ouvindo as mesmas mensagens inconvenientes, os mesmos gracejos, as mesmas tentativas de aproximação. Em algum momento falei que incomodava. “Achei que você não fosse monogâmica”. Como assim? Soube que já tinha sido assim por anos: por maior que se possa defender a liberdade sexual das pessoas, fato é que um assediador em série continuava fazendo as mesmas coisas, do mesmo jeito, totalmente livre, se aproveitando da confusão em se colocar em prática certas bandeiras, de liberdade de expressão ao punitivismo. Era assédio, e enquanto mulheres abandonavam esses espaços constrangidas, o mesmo homem continuava lá, enchendo o saco e dando chiliques sempre que questionado, mas livre. Tínhamos ainda a ilustre presença de outro indivíduo, declaradamente misógino, que não conseguia se conter frente a qualquer possibilidade de picuinhas com mulheres ou sobre o feminismo. Discutimos várias vezes. Independente do claro problema com a ala feminina, ainda embrionária, ele continuava sabotando as coisas por lá.

Seguimos.

Presenciei meus primeiros casos de mansplaining. Quando estávamos estruturando o coletivo feminista, pela enésima vez, tentando superar sabotagens e ataques emocionais de vários lados e as obrigações múltiplas das mulheres que estavam dispostas a ajudar, fomos surpreendidas por uma publicação no fórum interno de um indivíduo explicando qual seria a maneira “certa” de estruturar um coletivo feminista.

Você não leu errado, e neste ponto deve conseguir adivinhar quem foram os apoiadores da ideia. Respondi apontando o absurdo de sequer cogitar instruir as mulheres do coletivo, todas adultas e calejadas, sobre como nossos movimentos não tinham de ser do agrado dele, e outra garota escreveu ainda mais demoradamente. Fomos rechaçadas em Fórum sob acusações infantis, daquelas que tentam inverter os papeis de oprimido e opressor. As meninas malvadas questionando os meninos que só querem ajudar. Ok.

Tivemos outros problemas no percurso. Decidimos fundar em definitivo o coletivo e definir as atribuições para lidar com questões de gênero e eventuais casos de assédio.

Um grupo tão alinhado com pautas progressistas e combate à opressão, e começamos a sofrer gaslighting dos homens bem intencionados com as questões de gênero.

Soa absurdo? Uma das meninas ouviu, de um dos pavões, que seriam escolhidas mulheres “de confiança” para acompanhar casos de assédio – leia-se, da confiança dele. Nas cochias, quando debatia propostas delicadas para as nossas pautas, questionaram a minha capacidade de opinar sobre o assunto – sim, sobre a forma de as mulheres conduzirem o tema – porque eu namorava outro rapaz do mesmo grupo político, do qual meu interlocutor era antagonista declarado. Não sei exatamente em que ponto minha capacidade analítica e opinião passaram a ser uma extensão do meu companheiro afetivo, mas é assim que fui lida. Em outra discussão, três garotas apontaram os mesmos problemas, que foram respondidos somente após um quarto elemento, um homem, apontar o mesmo problema. Nós ficamos sem resposta, ele não.

Apontei , durante uma outra conversa, o desconforto com uma dessas piadinhas inocentes (e sexistas) que as pessoas contam. Não fiz escândalo. Só expliquei que, naquele ambiente, pelo que estávamos tentando defender e construir, esse tipo de piada não era adequada. Em questão de minutos tinha uma dezena de dedos (masculinos) apontados para mim. De alguma forma, eu não estava sendo acolhedora. Legal, e para as pessoas afetadas por esse tipo de “piada”, sujeitas a isso durante uma vida e buscando um espaço para debater pautas com seriedade, o quão acolhedora é essa postura? Defendemos as mulheres, a comunidade LGBT, os não-binários, os inadequados. Desde que resguardado meu direito de ser babaca. Defendemos o debate aberto e a fala prioritária, desde que a palavra final seja minha.

Lembra das figuras do começo do relato? Eles continuavam lá. E eu estava esgotada. Várias das garotas adoeceram ou jogaram a toalha durante o processo.

Fui saindo de cena aos poucos, incapaz de lidar com todas as nuances das discussões, o peso para dividir com poucas pessoas, as discussões infindáveis entre as mesmas figurinhas inundando grupos com ego masculino a ser defendido a todo custo. Mulheres não tem tempo pra discussões sem rumo: mais da metade de nós tinha obrigações domésticas, filhos, além do trabalho, das pesquisas, da coordenação com lutas locais. Tínhamos de direcionar energia para questões estratégicas, aproveitar o melhor de nós, sob risco de inviabilizar nossa contribuição. Precisamos atrair as mulheres, eles dizem, temos pouca diversidade aqui, precisamos parar de afastar as mulheres. Mas sofremos um tipo de sabotagem constante.

Reparei como isso era comum, não apenas onde eu estava inserida, mas em diversos outros grupos independentes, de pautas comuns, humanitárias, progressistas. Poucas mulheres, pouco espaço, muitos clichês. Espaços preferenciais para falar sobre questões de gênero ou diversidade sexual, mas e o resto? Não quero que a minha luta por equidade seja restrita à expressão sobre equidade. Afinal, não devo ser reduzida, na minha atuação como cidadã, como indivíduo político, à minha condição de mulher: posso falar tranquilamente sobre questões de infraestrutura, sobre áreas de risco, sobre a atuação do poder judiciário, sobre patifarias políticas, e sobre mais ou menos qualquer outro assunto sobre o qual eu possa estudar e aprender.

Não é assim tão fácil. Apesar de eu ter sido, por bastante tempo, a única pessoa dentro dessa área de atuação no grupo, muitas vezes meus comentários ficavam perdidos, sem resposta, sem atenção. Vamos propor soluções para a sociedade, mas não essas, porque estamos ignorando nossa única contribuição nesse sentido. É até meio cômico, se for pensar, porque a gente é bom num geral em apontar essas atitudes escrotas do quintal pra fora. Nenhum político escapa das suas falas machistas, mas nós mulheres não escapamos dos nossos defensores, tão ávidos em nos calar para nos defender.

No fim, cansei e larguei mão de tentar contribuir ali. Não sei em que pé está a maior parte das pautas, mas sei que não sou bem vinda ali. Não sou bem vinda porque só posso opinar sobre as questões de gênero se estiverem alinhadas com determinados caciques, e naturalmente, que não favoreçam seus desafetos, não sou bem vinda porque sou uma extensão intelectual do meu namorado e não tenho cérebro próprio, mesmo nos assuntos que eu domino e ele não e tendo vivido 26 anos inteiros sem conhecê-lo até então, e tampouco sou bem vinda porque quero debater propostas de ação e projetos enquanto 90% das pessoas querem a sensação de estar numa espécie de clubinho intelectual sem se envolver de fato, querem confete e serpentinas e flashes, mas não a responsabilidade de trabalhar em conjunto.

Está muito longe de ser um problema desse grupo de pessoas: minha percepção pessoal é a de que a minha geração teve muito acesso à informação, tem muito idealismo, mas parou aí. Temos uma profusão de messias, dispostos a lutar pelos fracos e oprimidos impondo um desconfortável silêncio aos oprimidos, gerando ruídos de comunicação que inviabilizam completamente a participação de pessoas vulneráveis nas pautas, pela falta de direcionamento prático, pelos horários, pelas discussões sem fim por picuinhas pessoais, pela falta de diálogo e de noção pragmática. Pessoas que parecem estar brincando de política, sem disposição para transformação ou um mínimo de autocrítica; a mudança tem de vir numa bandeja de prata forrada em veludo.

Cada um tem seus ideais e sonhos particulares e temos de nos encaixar entre sonhos e ideais alheios e dar um jeito de acolher e proteger uns aos outros. Infelizmente, os grupos que se propõem a defender o que eu acredito vão mal na condução das lutas. Não me sinto nem representada nem acolhida, como, acredito, a esmagadora maioria de mulheres e outras minorias, cujas bandeiras são ótimas para ganho de imagem mas não tanto para construção coletiva. Se queremos de fato mudanças, se queremos coletivos inclusivos e transformadores de fato, é necessário refletir sobre como e por quê continuamos reproduzindo as mesmas sistemáticas silenciadoras e opressivas, buscando benefícios superficiais na imagem de desconstruídos e moderninhos.

Insiste-se em criar meios de “dar voz aos oprimidos”, aos comuns, aos fracos. O que querem dizer com isso? Não cabe a mim, a você ou a ninguém dar às pessoas a voz que elas já tem. Mas caberia parar de silenciar e aprender a ouvir.

O ameaçador feminismo e a masculinidade frágil

Por Bucaneiras e Sereia Ciclista

Não se nasce homem, torna-se machista?

Em plena virada de ano, doze vidas foram perdidas em um massacre anunciado por uma carta de ódio. Tragédia, chacina, feminicídio e misoginia foram algumas das palavras utilizadas para descrever os acontecimentos, e todas registram fielmente as nuances do crime cometido, o seu caráter político e a violência odiosa contra as mulheres. As raízes desta tragédia não estão nada distantes de nós. Ao contrário, estão presentes lá no fundo de nossas mentes, de nossas lembranças. Nosso inconsciente, captando passivamente todos os pequenos detalhes de nossas vivências, trata de, naturalmente, reproduzí-las consciente e inconscientemente. As piadinhas e estereótipos que crescemos ouvindo e reproduzindo por anos e anos acabam servindo, na realidade, para preparar um terreno igualmente e extremamente hostil no qual o futuro irá se sustentar. A socialização acaba sendo um fator definitivo no que concerne às opiniões dos homens sobre as mulheres no decorrer de suas vidas, e isso está além de palavras jogadas ao vento. Trata-se de ofensas diárias, humilhações, agressões físicas e assassinatos.

Gostaríamos aqui de propor uma reflexão, não sobre a vítima, mas sobre o poder do discurso, a força política transformadora da mulher e o vazio argumentativo entre os homens que se dizem “feministas”.

O discurso é um elemento fundamental para a construção da nossa percepção sobre o mundo em que vivemos. Através dele construímos e comunicamos categorias para explicar e embasar nossa atuação. Portanto, todo discurso é político em sua concepção. As palavras que escolhemos, o significado que as atribuímos e como as organizamos são reflexos de nossas crenças e compreensão de mundo, e ao reproduzirmos um discurso nós colaboramos para a sua renovação, ou seja, seu fortalecimento. A carta produzida pelo assassino traz uma narrativa de mundo que nos soa familiar pois é fruto de um senso comum reproduzido nas rodas de amizades entre homens que raramente é questionado dentro destes ambientes. Sua presença nas redes sociais segue os mesmos mecanismos que reforçam o preconceito e o ódio FORA destas redes. Mais ainda: têm suas consequências ampliadas, fenômeno conhecido e explicado pela socióloga Karen Knorr Cetina:

“Efeitos de desproporcionalidade podem ser extraídos, por exemplo, do uso da tecnologia, da ciência e outras inovações, e dos diversos tipos de “mídias” usadas como sistemas amplificadores e multiplicadores. […] os elementos de coordenação envolvidos não são do tipo que associamos com autoridade formal, hierarquias complexas, procedimentos racionalizados ou estruturas institucionais profundas. Na verdade, os mecanismos envolvidos podem ser similares aos que encontramos em situações face-a-face, mas ao mesmo tempo sustentam arranjos à distância e sistemas distribuídos”. (tradução nossa, CETINA, 2005, p.214 – 215)

Deste modo, fica fácil entender como as redes sociais também funcionam como espaços de organização e potencialização do discurso que afirma o ódio contra a mulher. A grande diferenciação entre os círculos masculinos nos bares e praças e nas redes está no alcance e reprodutibilidade da mensagem produzida, ou seja, indivíduos antes isolados ou cerceados por controles pessoais de moralidade podem encontrar-se na rede e reafirmar seus preconceitos com pessoas que os incentivam. No entanto, estas mesmas tecnologias são apropriadas por movimentos sociais que lutam por igualdade de direitos entre homens e mulheres. São inúmeros os coletivos feministas e de mídia livre que buscam espalhar sua mensagem, muitos dos quais produziram textos utilizados aqui como referência. A atuação destes grupos é construtora do discurso que nos permite ler o mundo de diferentes formas, sendo o feminismo o movimento ímpar de construção e definição destas categorias políticas que permitiram a conquista de tantos espaços:

“As feministas trabalharam em várias frentes: criaram um sujeito político coletivo — as mulheres — e tentaram viabilizar estratégias para acabar com a sua subordinação. Ao mesmo tempo procuram ferramentas teóricas para explicar as causas originais dessa subordinação.” Piscitelli (2001, p.3)

Uma das primeiras reflexões do movimento feminista é sobre a construção do “outro” chamado de “mulher”, uma categoria que é tratada como diferente do homem, que por sua vez seria o padrão da pessoalidade, da cognição e da linguagem. O que se iniciou como uma revolta contra a desigualdade de tratamento e a opressão logo se expandiu para uma relativização do gênero como prisão e o reconhecimento de inúmeras possibilidades de “ser mulher” para além das convenções machistas estabelecidas no passado. O que era considerado feminino foi alvo de reflexão, implicando não em seu descarte, mas em sua reinterpretação e sua transformação em potencial de escolha e atuação não definitivas.

“O leitor pode agora se perguntar como defino a feminilidade ou onde estabeleço a fronteira entre a feminilidade genuína e a ‘mascarada’. Minha sugestão, contudo, é que não há tal diferença; radicais ou superficiais, elas são a mesma coisa.” Butler (2003, p.86)

A capacidade dos movimentos feministas de se reinventarem e narrarem o mundo através do seu discurso possibilitou a conquista de muitos direitos que antes inexistiam para as mulheres e também amplo reconhecimento na sociedade. É perceptível como a cultura patriarcal tradicional se sente incomodada pela atuação de grupos feministas. A crítica à sua atuação é encontrada facilmente nos discursos destes opositores, assim como fora reproduzido na carta do assassino em sua crítica à lei Maria da Penha, bem como ao afirmar que sua antiga companheira “foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos”. O feminismo é visto como uma ameaça à sobrevivência da masculinidade. A despeito das grandes conquistas alcançadas pelo movimento feminista, é interessante observar como os homens que participaram deste movimento não obtiveram sucesso semelhante em redefinir o conceito de homem e de masculinidade com o “movimento de liberação masculina” (Men’s liberation movement) e os “estudos do homem” (Men’s Studies).

Não só academicamente, mas também no seio da própria militância, vemos os homens deixarem que as definições do que é “ser homem” e “ser macho” serem monopolizadas pelas mesmas tradições problemáticas que ensinam a violência como forma de autoafirmação, a anulação do emocional como prova de força, a sexualidade como valor em si, o moralismo patriarcal religioso e a objetificação da mulher como caminho natural do masculino. O pai do assassino definiu seu filho como “Tímido e retraído, ninguém sabia pelo que estava passando […] um amor de pessoa. Não bebia, não fumava”, sua incapacidade em descrever seu filho para além do consumo de drogas é um exemplo claro do distanciamento paternal e da falha da socialização que não permite a aproximação afetiva de pai e filho e cujo valor acaba sendo determinado por convenções rasas. Segundo uma das professoras de João Victor, filho do assassino, o menino não gostava do pai e havia prometido que quando crescesse iria matá-lo (mais uma prova de uma socialização frágil criada por um masculino frágil e defeituoso).

Por fim, cabe a pergunta: podemos acreditar em uma mudança significativa da nossa sociedade fundamentada na militância ativa dos homens pró-feminismo não só em defesa das mulheres, mas para com seus semelhantes?
Podemos confiar que metade da população terrestre irá abdicar de seus hábitos incontestados e reforçados pela mídia e cultura sem que haja uma forte oposição dos próprios homens para que isso aconteça?
Em tempos de reclamação sobre o protagonismo e a participação dos homens no movimento feminista, a ampla frente de trabalho que exige dos homens sua ação está abandonada à própria sorte enquanto o masculino segue assumido como indiscutível e natural. É preciso repensar a masculinidade tóxica, já tão naturalizada em nós, pelo bem de todos.

Increva-se https://www.youtube.com/channel/UCd0w23TdxCa39_DHATSPCEg

Fontes:http://www.culturaegenero.com.br/download/praticafeminina.pdf
http://docslide.com.br/documents/butler-judithproblemas-de-generocompletopdf.html
http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2017/01/a-tragedia-anunciada-do-eterno-odio.html
http://www.geledes.org.br/chacina-em-campinas-e-o-odio-que-se-transforma-em-maquina-de-matar-mulheres/#gs.enFgcfU
http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2017/01/veja-quem-sao-vitimas-da-chacina-em-festa-de-reveillon-em-campinas.html
http://www.shoujo-cafe.com/2017/01/mais-um-massacre-algumas-palavras-sobre.html
https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/02/o-monstro-sobre-a-chacina-de-campinas-misoginia-e-noticias/
CETINA,Karen Knorr. ComplexGlobal Microstructures: TheNew Terrorist Societies. Theory, Culture & Society vol. 22. TheTCS Centre, Nottingham Trent University, 2005.

Pioneiras antes da história

O 8 de março, já há alguns anos, é marcado por alusões a mulheres inovadoras e pioneiras, que quebraram barreiras existentes em seu (e no nosso) tempo.

Acho ótimo.

Mas muito além de Ada Lovelace, Ruth Brown, Hedy Lamarr, Katherine Johnson e tantas outras, é um pouco irritante ver sempre histórias sobre “a primeira mulher médica” ou “a primeira engenheira” ou “a primeira professora”. Sim, são fatos históricos relevantes, por um lado, por outro, me parece uma imensa injustiça histórica.

Por que? Porque mulheres sempre fizeram isso.

Mulheres eram médicas com suas ervas e conhecimento passado entre mulheres muito antes da medicina. Mulheres eram filósofas, matemáticas e astrônomas, mulheres decifravam os ciclos da natureza e a agricultura antes do estabelecimento do método científico, mulheres sempre foram professoras e líderes espirituais em suas comunidades e suas famílias. A ideia de que homens sempre foram curiosos e exploradores, que olhavam para o céu e decifravam o comportamento dos astros enquanto nós ficamos com a cabeça aqui parindo filhos é muito mesquinha. A humanidade sempre teve a mesma centelha de barbárie e de curiosidade, de desenvolvimento e inovação, antes que a história da humanidade fizesse parte de um registro, e nós somos parte dela.

Historicamente, temos uma primeira mulher a ingressar na NASA, mas quem foi a primeira mulher a olhar para o céu e planejar os ciclos cotidianos de acordo com as estrelas ou a lua? Temos uma primeira mulher engenheira, mas quem terá sido a primeira mulher a desenvolver uma casa com material disponível com as próprias mãos? Essas linhagens vão muito além de nós.

Por que, então, estou falando disso? Parece que estou querendo minimizar os feitos de mulheres que hoje, com muito esforço, tem seus nomes reconhecidos? Claro que não.

Quero apontar que mulheres sempre exerceram todas essas funções, socialmente, cotidianamente, e se não há inscrições anteriores a isso ao século passado que seja, é porque fomos impedidas: o humanidade fez um esforço consciente, ativo, buscado e construído de aniquilação da mulher. A mulher não era letrada porque era impedida, não entrava nas universidades porque era impedida, não cuidava da própria vida porque era proibida, obrigada legalmente a ter a tiracolo um homem, e ah, pobre da mulher que perdesse todos para a guerra, para a fome, para a peste…impedida de ser a dona da própria vida, sem um dono que respondesse por ela!

As grandes mulheres cujos nomes reconhecemos hoje foram as mulheres que conseguiram seu lugar APESAR do boicote. Nem todas tiveram essa sorte.

Devemos celebrar cada uma dessas mulheres incríveis, pioneiras, sim, cada uma com uma contribuição ao mundo que conhecemos hoje, e um passo além no reconhecimento do nosso espaço. Mas creio que seja hora de ir além, e começar a corrigir essa ideia de que a nossa participação começou com elas. Nós sempre estivemos lá, o mundo não existe sem as mãos das mulheres, nós só tivemos nossos nomes roubados dos livros.

“Ao longo da maior parte da história, Anônimo era uma mulher.” (Vinginia Woolf)